terça-feira, 21 de abril de 2009

DepOis que a gente cOmeça fica fáciL

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"Vem, anda comigo, nada nos prende, vamos sumir!" VitOr RamiL

E o Mestre contou uma parábola...

E lhes disse: "Dentro de nós está o poder de nosso consentimento para a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a liberdade e a escravidão. Somos nós que controlamos isso, e não os outros."


Um moleiro disse: "Essas palavras são fáceis em tua boca, Mestre, pois és guiado como não somos nós, e não precisas trabalhar como trabalhamos. O homem tem de trabalhar para ganhar a vida neste mundo."

O Mestre respondeu: "Uma vez havia uma aldeia de criaturas no fundo do leito de um grande rio cristalino.

"A corrente do rio passava silenciosa por cima de todos eles, jovens e velhos, ricos e pobres, bons e maus, a corrente seguindo seu caminho, só conhecendo o seu próprio ser cristalino.

"Cada criatura, a seu modo, se agarrava fortemente às plantas e pedras do leito do rio, pois agarrar-se era seu modo de vida, e resistir à corrente era o que cada um tinha aprendido desde que nascera.

"Mas uma das criaturas disse, por fim: 'Estou farto de me agarrar. Embora não possa ver com meus próprios olhos, espero que a corrente saiba para onde está indo. Vou soltar-me e deixar que ela me leve para onde quiser. Se me agarrar, morrerei de tédio.'

"As outras criaturas riram-se e disseram: 'LOUCO! Se você se soltar, essa corrente que você adora o lançará despedaçado sobre as pedras e sua morte será + rápida do que a causada pelo tédio!'

Mas aquele não lhes deu ouvidos e, respirando fundo, soltou-se, e imediatamente...foi lançado e despedaçado pela corrente sobre as pedras!

"Mas com o tempo, como ele se recusasse a tornar a se agarrar, a corrente o levantou, livrando-o do fundo, e ele não se machucou nem se magoou mais."

"E as criaturas mais abaixo no rio, para quem ele era um estranho, exclamaram: 'Vejam, um milagre! Uma criatura como nós, e no entanto voa! Vejam, é o Messias que chegou para nos salvar!'

"E aquele que foi carregado pela corrente disse: 'Não sou mais messias do que vocês. O rio tem prazer em nos erguer à liberdade, se ousamos nos soltar. O nosso verdadeiro trabalho é essa viagem, essa aventura!

"No entanto, cada vez exclamavam mais 'Salvador!!', enquanto se agarravam às pedras; quando tornaram a olhar, ele se fora, e ficaram sozinhos, inventando histórias e lendas sobre um salvador."

E quando viu que a multidão cada vez o seguia mais de perto, mais terrível do que nunca, quando viu que insistiam para que ele os curasse sem descanso, e sempre os alimentasse com seus milagres, e aprendesse por eles e vivesse suas vidas, foi sozinho para o topo de um morro e rezou.

E disse em seu íntimo, "Ser Infinito e Radioso, se for a tua vontade, deixa que esta taça passe de minhas mãos, deixa-me pôr de lado esta tarefa impossível. Não posso viver a vida de uma outra alma, no entanto dez mil me imploram a vida. Sinto ter permitido que tudo isso acontecesse. Se for a tua vontade, deixa-me voltar ao motores e às ferramentas e viver como o mais humilde dos mecânicos."

E uma voz lhe falou do topo do morro, uma voz que ñ era de homem nem de mulher, nem forte nem fraca, uma voz infinitamente bondosa, que disse: "Não a minha vontade, mas a tua seja feita. Pois o que for a tua vontade será a minha vontade para ti. Segue o teu caminho como os outros homens e sê feliz na Terra."

E ao ouvir aquilo o Mestre alegrou-se, deu graças e desceu do morro cantarolando uma cançãozinha de mecânico. E quando a turba o atormentava com seus males, implorando que os curasse, aprendesse por eles, os alimentasse constantemente com sua compreensão e os divertisse sempre com suas maravilhas e milages, ele sorriu para a multidão e disse: "Eu desisto."

Por um momento a multidão ficou muda de espanto.

E ele lhes falou: "Se um homem disse a Deus que o que queria mais que tudo era auxiliar o mundo sofredor, fosse qual fosse o preço para si, e Deus lhe respondesse o que devia fazer, o homem deveria fazer o que lhe era ordenado?"

"Pois claro, Mestre!" exclamaram. "Devia ser um prazer para ele sofrer as torturas do próprio inferno se Deus lhe pedisse!"

"Não importa quais fossem essas torturas, nem a dificuldade da tarefa?"

"Seria uma honra ser enforcado, uma glória ser pregado a uma árvore e queimado, se fosse isso que Deus pedisse!", disseram eles.

"E o que fariam vocês", perguntou o Mestre à multidão, "se Deus lhes falasse diretamente, em pessoa e dissesse: 'ORDENO QUE SEJAS FELIZ NO MUNDO, ENQUANTO VIVERES'. O que fariam então?"

E a multidão calou-se e nenhuma voz ou som foi ouvido sobre os morros e nem pelos confins dos vales.

E o Mestre disse: "No caminho da nossa felicidade encontraremos o conhecimento para o qual escolhemos esta vida. É assim que aprendi hoje e prefiro deixá-los agora para seguirem o seu caminho, como desejarem."

E seguiu seu destino, voltando ao mundo dos homens e dos motores.

Richard Bach, Ilusões - As aventuras de um Messias indeciso.



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